GASTagus

Ilha do Maio, Cabo-Verde 2019

Djarmai azul, azul, azul, di nos mar.

É assim na melodia de Tibau e foi assim aos nossos olhos, todos os dias do mês de agosto. Partimos para uma das ilhas mais pequenas do arquipélago cabo-verdiano, para aquela ilha que ninguém conhece, mas que, para nós, se tornou na mais especial. Partimos com o propósito de formar e educar, de dar ferramentas para o desenvolvimento e, no fundo, de ajudar tanto quanto pudéssemos. Durante um mês, fizemos colónias de férias, em que falamos sobre saúde, ambiente e cidadania; visitamos os mais idosos, conversando com eles e medindo a tensão e a glicémia; realizamos rastreios de saúde por toda a ilha, chegando onde nem as instituições chegam; demos formações para salas cheias, mas também para salas vazias; ensinamos inglês; patrulhamos praias para proteger as tartarugas; fizemos ginástica no Morro e ensaiamos uma peça de teatro com as crianças. Durante um mês, recebemos incontáveis sorrisos e palavras de agradecimento. Obrigada pelo vosso trabalho, Deus sta co nhos, as portas sempre abertas para nos receber, as pessoas sempre prontas para nos ouvir. E lá no Morro, lá no Morro tínhamos a nossa comunidade, o cheirinho a pão da Emilça, a correria das nossas crianças, a alegria das nossas pessoas.

Em ti, Djarmai, vimos o mar mais azul de que nos podemos abeirar, mas não foi só. Em ti, Djarmai, vimos os sorrisos dos nossos mininos e das nossas mininas, vimos a pequena Ceula a gritar pela Nina logo cedo pela manhã, perdemos a conta às vezes que o Zelino saiu da casa da Dona Céu com o copo de doce de calabaceira, separamos brigas, testemunhamos a linda amizade da Ju e da Zeleica, demos tantas gargalhadas, recebemos tantos abraços, aprendemos tanto com cada um de vocês, Rúben, Ady, Emanuel, Juni, Walter, Ivanildo, Nunu, Élio, Alexsandro, Helder, Celiza, Leidiza, Luriane, explicamos que têm de olhar sempre uns pelos outros, que não se bate no amigo, apanhamos lixo na praia e nas ruas, porque queremos que cresçam e aprendam a ser os cidadãos de amanhã, que protejam as tartarugas, mas essencialmente uns aos outros. Conhecemos a Doris e o seu riso, a Dercy e o seu docinho de banana, a Emilça e seu maravilhoso pão. Em cada uma delas tivemos uma amiga, alguém com quem contar, um abraço reconfortante. Em ti, Djarmai, conhecemos o Sr Agostinho, que nos proporcionou tantas histórias inesquecíveis, seja porque nos deu uma tia, seja porque nos levava a viajar na carrinha Cesária, seja porque nos levou a tomar o pequeno almoço junto de Deus, no cimo do Monte Penoso (não se preocupe, Sr Agostinho, só nós é que o vimos cair na descida), ou porque se atrasou para nos ir buscar, mas tinha uma pizza em casa à nossa espera. Em ti, Djarmai, fomos verdadeiramente felizes.

Djarmai, em ti encontrei-me. Em ti, fui mais eu, sem medos, sem pressões, sem preconceitos, na simplicidade da vida e das coisas. Em missão encontramo-nos, porque missão é estar, é simplesmente ser, é entregar tudo o que temos e mesmo assim voltar com tanto e mais ainda. É abdicar em prol de quem precisa de nós. É receber abraços de desconhecidos, que se tornam amigos. É sentir o cheiro do pó do Maio e deixar que ele nos envolva. É sentir o vento na cara e nos cabelos, é sentir que estamos a sonhar, é agradecer cada dia, é não ter energia, mas ter vontade. Estar em missão é também chorar as lágrimas da partida. É voltar a pisar Portugal, sabendo que um bocadinho de nós ficou. 

E missão não seria o que foi sem a equipa. Sem a Maria, sem o Daniel, sem a Ana e sem a Lúria. A minha querida equipa, que amou tanto quanto amei, que se entregou tanto quanto me entreguei, que viveu o Maio como eu vivi, que me deu as mãos e cantou comigo em plenos pulmões, ó, ncre bai mas hora de bai ta custam…, que idealizou e planeou tantas colónias e formações, que foi para a rua chamar pessoas, que picou dedos e contou ovos de tartaruga, que fez as melhores refeições com ingredientes não tão bons, que festejou as raras vezes em que encontramos fruta no mercado, que saboreou as fresquinhas da dona Isabel, que mergulhou no mar azul, que fez o enésimo esforço de entender e falar crioulo, que comeu aquela banana frita picante que simbolizou a nossa união.

Djarmai, estamos longe, mas mais perto do que nunca. Proporcionaste o mês mais incrível das nossas vidas, a aventura que vamos passar o resto da vida a querer contar, mas a falhar redondamente em transmitir a tua beleza. Djarmai, deixaste-nos aquele sodade mais profundo que a Cesária cantou, mas que hoje sabe tanto a nós.

Rosa Maria.