GASTagus

Empada, Guiné-Bissau 2019

“Ontem à noite dei por mim a refletir sobre o que é que eu levo de missão e o que deixo. Há sempre o medo de não ter feito grande diferença, num país como a Guiné-Bissau é muito fácil ter esse medo porque ainda é preciso fazer muita coisa. Estamos em Empada, uma “vila” que não tem eletricidade, não tem saneamento básico, não tem recolha de lixo, e tem um poço como única fonte de água… Tudo coisas que em Portugal tomamos como garantido, nem perdemos um segundo a pensar na eletricidade das nossas casas, a pensar que lavamos a nossa roupa e louça com água potável… 

Uma das coisas que esta missão me trouxe foi a noção que sou das pessoas mais sortudas do mundo, pela família que tenho e por ter nascido no país que nasci. Espero nunca perder esta sensação, e que saiba sempre dar valor a tudo o que tenho. Dar valor a todas as minhas oportunidades e não desperdiçar nem uma, porque há pessoas, que por não conhecerem, não podem sequer imaginar ou sonhar. 

Desta missão levo sorrisos só por dizer “Olá”, levo abraços que aparecem do nada, levo jogos de futebol com humidade a 110%, levo mil picadas de mosquito, levo agradecimentos pelo aquilo que viemos cá fazer, seja em palavras, sorrisos, gestos, ou apenas no empenho que colocam nas aulas.

Esta missão ensinou-me que chuva torrencial não é impedimento para nada, ensinou-me que só se perdêssemos o acesso fácil à educação é que realmente daríamos valor à aprendizagem e que, aqui em Empada, vir às nossas aulas é uma alegria. Ensinou-me que pode ser muito fácil ser-se feliz. Mostrou-me que qualquer um dos meus problemas, aqui não seriam nada.

Às vezes é difícil lidar com a nossa realidade depois de conhecermos outra tão diferente, que nem pensámos que existia por vivermos tão bem na nossa. Mas temos que aceitar que, infelizmente, existem essas realidades e que temos a sorte que a nossa seja diferente e fazer os possíveis para ajudar no que conseguimos. 

 

Não consigo saber ao certo o que deixei, mas espero ter deixado esperança, alegria e algum conhecimento.

Vou ter saudades de ouvir o meu nome a surgir entre as casas quando estou a caminho do liceu ou de outro sítio qualquer, de música e dança em todo e qualquer evento. Vou ter saudades de papas de aveia ao pequeno-almoço, da minha equipa, talvez vá ter saudades desta humidade, mas é duvidoso, vou ter saudades das pessoas, muitas saudades mesmo… Vou ter saudades de Empada.

Guiné-Bissau, Empada 2019”